Ameyo Adadevoh: a força feminina que salvou um país do ebola.



Vivemos um momento complicado da era contemporânea, em meio à pandemia do novo coronavírus. Sempre que passamos por crises é natural a retomada histórica de situações semelhantes, na tentativa de obter alguma informação que nos dê algum norte. Nesse contexto, é interessante relembrar também as personalidades notáveis que tiveram atitudes imprescindíveis à resolução de crises humanitárias. *Muitas mulheres lidam e lidaram diretamente com epidemias e pandemias com papéis de destaque, porém nem sempre ouvimos falar a respeito de suas trajetórias. Viemos aqui então para marcar e expandir o legado de cada uma dessas grandes profissionais* e começaremos esse movimento com a médica Ameyo Adadevoh, endocrinologista responsável pela baixa incidência de casos de Ebola na Nigéria em 2014.

Quem foi Ameyo Adadevoh Ameyo Stella Adadevoh nasceu em Lagos, Nigéria, no ano de 1956. Era médica endocrinologista atuante no First Consultant Hospital, localizado em sua cidade natal. Em 2012, ano da epidemia da gripe suína (H1N1), Adadevoh foi a primeira médica a diagnosticar casos e notificar o Ministério da Saúde nigeriano. Em 2014 também foi responsável pelo diagnóstico, notificação e conscientização a respeito do primeiro caso de Ebola no país. De acordo com o jornal The Guardian, a médica era conhecida por fornecer medicação gratuita a quem não tinha condições financeiras.

O que é o Ebola? Ebola é uma doença viral transmitida através do contato com fluidos corporais de pessoas infectadas, como urina, fezes, sêmen, saliva e sangue. Os sintomas podem demorar até 21 dias para se manifestarem, sendo os mais graves as erupções cutâneas, deficiências renais, falência de órgãos e hemorragia interna. O doente acaba morrendo pelo próprio agravamento de sintomas, e só há transmissão do vírus no paciente sintomático. A mortalidade varia de 50 a 90% dos casos a depender do subtipo viral. Os tratamentos giram em torno do alívio dos sintomas e não há cura medicinal, ou seja, o organismo da pessoa tem de reagir ao vírus para se recuperar.

A Nigéria e a Ebola O primeiro caso da doença no país foi a infecção do diplomata liberiano Patrick Sawyer. Durante voo para Lagos Patrick passou mal, sendo levado para o hospital em que Adadevoh trabalhava. Tratado para Malária, porém sem apresentar quaisquer sinais de melhora, o diplomata afirmava não ter tido contato com nenhum paciente infectado pelo vírus ebola, apesar de seu país ser um dos focos do surto. Agressivo e impaciente, Sawyer exigia sua alta hospitalar para comparecer a uma conferência. O próprio governo liberiano pressionava a equipe médica a enviar o paciente de volta ao país de origem. Mesmo com toda pressão internacional, Ameyo não cedeu e enviou uma amostra para análise laboratorial, obtendo resultado positivo para a infecção viral. O diagnóstico representou um grande desafio: não havia ala de isolamento na Nigéria onde os casos confirmados pudessem ser alocados. Não somente isso, Patrick Sawyer não passou por nenhum processo de triagem na chegada ao hospital, contaminando assim membros da equipe médica, dentre eles Ameyo. A ausência de equipamentos de proteção individual só piorava a situação dos profissionais responsáveis pelo caso, tanto que muitos se recusaram a tratar o diplomata. A única que aceitou o desafio foi Adadevoh. A médica organizou, primeiramente, uma desinfecção do ambiente hospitalar. Em seguida, tratou de conscientizar enfermeiros, médicos e funcionários sobre a doença. Não obstante, também criou, juntamente com a equipe do First Consultant Hospital, uma ala de isolamento para pacientes diagnosticados positivos para Ebola, sem qualquer auxílio governamental e apenas seis dias após a confirmação do primeiro caso. Os resultados de toda a força e dedicação da endocrinologista foram apenas vinte casos da doença confirmados em todo o país, com apenas oito mortes. Em 93 dias a Nigéria estava livre da Ebola.

Ameyo e seu legado Infelizmente, Ameyo Adadevoh foi vítima do vírus que tanto lutou para combater – falecendo na mesma unidade de isolamento que ajudou a criar, poucos dias após sua abertura – mas não sem deixar um grande legado. Foi fundada a DRASA, ONG que trabalha para fortalecer a Nigéria para enfrentar novas pandemias e crises sanitárias, além de manter o legado de Ameyo. Adadevoh teve uma série de desafios a transpor, e o fez com êxito. Confiou em seu estudo e seu conhecimento, teve consciência de toda a importância de uma quarentena mesmo quando integrantes do governo e outros profissionais da saúde não a viram. Por isso, não devemos e nem podemos deixar sua história desconhecida. Precisamos nos fortalecer como mulheres e agregar o máximo de conhecimento possível para que, quando tivermos de transpor nossos desafios, quaisquer sejam nossas áreas de atuação, façamos o nosso legado como Ameyo o fez brilhantemente.

Por Giulia Berzoini Costa Leite

Giulia Berzoini é graduanda em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa e bolsista do CNPq na área de bovinocultura de leite. Está atualmente conduzindo um experimento sobre colostragem de bezerros neonatos em uma fazenda do Norte de Minas Gerais. É professora voluntária de Biologia e de Inglês do cursinho popular Esperanza, além de ser trainee do STEM para as Minas.

Referências: AVENTURAS NA HITÓRIA. Ameyo Adadevoh: a corajosa médica que identificou o primeiro caso de Ebola na Nigéria. Disponível em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/ameyo-adadevoh-a-corajosa-saga-da-medica-que-identificou-o-primeiro-caso-de-ebola-na-nigeria.phtml>. Acesso em: 05 jul. 2020. BEM ESTAR. Médica que tratou 1º caso de Ebola na Nigéria pagou com a própria vida. Disponível em: <http://g1.globo.com/bemestar/ebola/noticia/2014/10/medica-que-tratou-1-caso-de-ebola-na-nigeria-pagou-com-propria-vida.html>. Acesso em: 05 jul. 2020. DRASA TRUST. Biography. Disponível em: <https://web.archive.org/web/20171130014110/http://www.drasatrust.org/biography/>. Acesso em 05 jul. 2020. DRASA TRUST. Mission. Disponível em: <https://web.archive.org/web/20171130014126/http://www.drasatrust.org/mission/>. Acesso em: 05 jul. 2020. REDE D’OR SÃO LUIZ. Ebola. Disponível em: <https://www.rededorsaoluiz.com.br/doencas/ebola>. Acesso em: 05 jul. 2020.


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